Polêmica junina

Quadrilhas estilizadas: como elas surgiram e por que ‘incomodam’ tanto a alguns?

Espetáculos suntuosos e cheios de ‘modernidades’ costumam fazer torcer o nariz dos mais tradicionalistas. O LeiaJá conversou com o pesquisador Mário Ribeiro dos Santos para entender esse fenômeno

por Paula Brasileiro
Paulo Uchôa/LeiaJáImagens
As quadrilhas estilizadas chamam atenção pelo luxo mas incomodam aos mais 'tradicionais' | Paulo Uchôa/LeiaJáImagens

Hoje em dia, arraial que se preze tem que ter espetáculo de quadrilha. E não é exagero identificar as apresentações dos grupos dessa maneira. A cada ciclo junino, as quadrilhas se preparam mais e melhor para seu São João. Os figurinos são luxuosos, as coreografias minuciosamente executadas, algumas fazem uso até de cenário e alegorias e os temas ditam cada detalhe do show e precisam ser significativos, podendo ir da questão carcerária no Brasil à violência contra a mulher.

Tantos detalhes distantes das quadrilhas ditas tradicionais deram a esses grupos a alcunha de estilizados. Eles incorporam em seus espetáculos elementos de seu contexto atual, como músicas de compositores do momento, movimentos oriundos de outras manifestações - uma quadrilha, neste ano de 2019, arriscou até a fazer o passinho do bregafunk em sua evolução -, e nesse ritmo acabam tomando ares de grande show. Elas enchem arquibancadas por onde passam e encantam com a magnitude de suas apresentações, no entanto, muitos são os que torcem o nariz para as estilizadas acreditando que o bom São João é aquele de antigamente.

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A quadrilha era um costume da corte

As quadrilhas chegaram ao Brasil no início do século 19, trazidas pela família real portuguesa. Elas eram dançadas em diferentes épocas do ano e ocasiões, como aniversários, nascimentos e até casamentos. Com a chegada da República, os costumes da corte passaram a ser enxergados como ultrapassados e aí acontece um processo de interiorização das quadrilhas, que passam a fazer parte das comemorações do homem do campo, sobretudo em tempos de colheita.

Já na época do Estado Novo, entre as décadas de  1930 e 1940, a Ditadura Militar reforça na nação uma necessidade de se valorizar as tradições do país, com vistas no crescimento do turismo no Brasil. Para isso, as escolas criam concursos de quadrilhas juninas aos moldes do que se praticava no interior: pares dançando com roupas remendadas, ao som do típico forró pé-de-serra e com movimentos característicos.

Esse tipo de evolução, chamado de tradicional, esbarrou em um novo momento em meados dos anos 1980. Foi quando um grupo de quadrilheiros decidiu pesquisar sobre as origens das quadrilhas e descobriu que elas são herança da corte real. Sendo assim, eles passaram a incorporar roupas mais luxuosas às suas apresentações criando novas maneiras de se fazer quadrilha. O professor e pesquisador Mário Ribeiro dos Santos, relembra algumas dessas pioneiras. "No Recife, uma das primeiras que vai fazer essa mudança na forma de dançar e se apresentar é a Pelo Avesso, do Ibura, no final dos anos 1980.. Depois a Nós Sofre mas Nóis Goza, de Jardim São Paulo, já extinta, começa a dançar com roupas padronizadas. Nos anos 1990, vem uma quadrilha que começa a trazer o casamento gravado, a Boa Vista Show, do bairro dos Coelhos, em 1994. Depois outra já vem e desenvolve um tema do início ao fim causando grande repercussão que é a Pisa no Espinho, que falou sobre cangaço em 1996, e aí eles vão criando novas formas de apresentar o espetáculo".

O professor explica que essas modificações são bastante naturais e que o fazer cultural é resultado da vivência e realidade de seus brincantes. "As quadrilhas constituem um movimento cultural vivo, é uma forma de expressão viva. Ela vai atender às necessidades do público que a faz. Então, ela está em processo de mudança constantemente. É algo que vai ter diferentes formas no decorrer do tempo porque ela é praticada por diferentes grupos sociais, com diferentes vivências e necessidades. A quadrilha de 2019 não é a mesma de 1970, porque as pessoas são outras". Ele também frisa que as tradições não podem ser entendidas como estático e puro, que não pode ser tocado. "as tradições são construções históricas, são um conjunto de práticas repetidas ritualisticamente a ponto de algo se naturalizar, como se fosse aquilo desde sempre e não é.  Toda forma de manifestação cultural passa por um processo de transformação para sobreviver e para fazer sentido para vida de quem faz. A partir do momento que ela perde sentido para quem faz, ela deixa de existir".

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As quadrilhas atuais dançam de acordo com temas variados

Os grandes concursos, os principais realizados pela Prefeitura do Recife e pela Rede Globo de Televisão, também são responsáveis por essas modificações. Para disputar o título de campeã, as quadrilhas passam cerca de nove meses se preparando. A preparação vai desde a escolha de um tema, à elaboração de roteiro, coreografia, confecção de figurinos, ensaios dos quadrilheiros, pesquisa de trilha sonora e até composição de novas músicas que se adequem ao espetáculo. "A quadrilha que ganha já dita normas e influencia outra, a gente pode considerar que eles são fatores de influência, mas não são os únicos condicionantes", diz o professor.

Todo esse trabalho culmina em apresentações deslumbrantes, como muito brilho, luxo e ritmos. No entanto, muitos são aqueles que criticam a estilização das quadrilhas. É comum ver, entre o público, críticas de que essas quadrilhas estão perdendo a autenticidade e desrespeitando as tradições juninas. Para Mário, esse raciocínio não se aplica e denota um conservadorismo. "A ideia de autêntico leva a algo puro e quando a gente fala de cultura, principalmente a brasileira, não existe purismo, a gente já nasce mestiço.  Essas pessoas precisam enxergar que o mundo é diverso, tem pessoas diferentes e que elas vão se manifestar, traduzir essas experiências de diferentes formas. Como eu posso ter uma cultura homogênea e uniforme se na própria formação da sociedade brasileira a gente é formada por diferentes culturas, então não existe isso, de querer uma forma única de fazer quadrilha e cultura".

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As quadrilhas movimentam a economia e geram inclusão social

Movimento Social

Fato indiscutível a respeito das quadrilhas é o seu impacto nas comunidades e na economia local. Os grupos arregimentam jovens de todas as idades, dando-lhes uma ocupação, ensinando-lhes sobre a cultura popular do seu Estado e também desenvolvendo seu potencial artístico. Além disso, a produção de um espetáculo movimenta uma cadeia de profissionais, como costureiras, coreógrafos, roteiristas, músicos, projetistas e designers, entre outros; sem contar na injeção de dinheiro no comércio, através da compra de aviamentos, materiais, tecidos e outros insumos.

Sem contar no aspecto emocional que acaba vindo de brinde para cada quadrilheiro. Agregadoras, as quadrilhas acolhem pessoas de diferentes tipos e gêneros, sem qualquer distinção, como explica o pesquisador. "Os grupos têm um trabalho social muito forte de inclusão, de trazer e acolher travestis, homossexuais, lésbicas, pessoas que em sua grande maioria são rejeitadas pela sociedade preconceituosa e homofóbica. É uma área da sociedade acolhedora que transforma vidas. A cultura transforma vidas". E são essas as vidas que seguem fazendo e transformando a cultura junina, uma das mais fortes e bonitas do Nordeste.

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