Bastidores

Quadrilha por dentro: um espetáculo feito por muitas mãos

Integrantes da Dona Matuta, de San Martin, no Recife, contam um pouco sobre o processo de fazer um São João

por Paula Brasileiro

É noite do sábado e o Salão Nobre do Sport Club do Recife se organiza para receber uma festa. Este foi o endereço escolhido pelos integrantes da Quadrilha Dona Matuta, do bairro de San Martin, para a grande estreia de seu espetáculo do ano de 2019.

Pelo salão, quadrilheiros e quadrilheiras circulam segurando enormes malas com figurinos e adereços; no palco, outros tantos integrantes organizam celulares e câmeras que vão transmitir o show para os quatro cantos do mundo pela internet; e no saguão, outra parte da equipe recebe os convidados e curiosos que já estão chegando para assistir à anfitriã e outras quadrilhas que se apresentam no evento.

Para fazer a quadrilha acontecer é assim. Muitas pessoas trabalhando e fazendo um pouco disso e daquilo. Em 2019, a Dona Matuta conta com 110 integrantes; cada um deles  além de bordar roupas, cuidar da administração, comunicação e organização geral do grupo, entre tantos outros detalhes, também é artista. Depois de todo o trabalho desenvolvido ao longo de cinco, seis meses, eles serão vistos dançando, cantando e sorrindo muito, demonstrando que todos os detalhes foram cuidados com muita dedicação e no fim tudo terá valido a pena.  

No meio do corre corre para a apresentação, George Araújo se mantém atento a cada detalhe. Com 22 anos de experiência em quadrilhas juninas, o projetista é um dos fundadores da Dona Matuta e, desde 2009, atua como projetista do grupo. É dele a missão de pensar em um tema para a apresentação, além de realizar pesquisas, roteirizar, testar o que funciona ou não no arraial e dirigir toda a parte artística.

No entanto, nada disso é feito de maneira solo. O grupo tem uma equipe especial para cada segmento, são "as pratas da casa", como George chama e tudo é feito em conjunto. Costura, maquiagem, coreografia, administração, produção de eventos e comunicação. Diferentemente de outras quadrilhas que acabam contratando pessoas de fora para montar seu São João: "Hoje em dia existe um mercado para desenvolver as histórias", conta George. Também há grupos que contratam seus marcadores, figurinistas e coreógrafos.

Mas na Dona Matuta, o 'serviço' é feito à várias mãos. Os integrantes se doam e aproveitam cada momento, como conta Vanbaster Oliveira, que além de dançar colabora na comunicação e na montagem do espetáculo. "Fazer a quadrilha em si é um processo de construção muito trabalhoso. Leva muito tempo. geralmente a gente acaba um ciclo e já inicia o outro pra chegar até o final com o trabalho construído de forma que a gente espera". O quadrilheiro abre um largo sorriso para falar da satisfação de participar da equipe: "O processo de construção é muito bom porque a gente tá todo domingo com os nossos amigos. Vai se pesquisando música, estudando coreografia, estudando a  temática escolhida pra desenvolver e fechar o que se espera".

Nesse ritmo, a Dona Matuta já conquistou diversos prêmios e um lugar de destaque no ciclo junino. O grupo já foi campeão estadual por quatro vezes e regional uma, pelo campeonato da Rede Globo Nordeste, além de também já ter vencido várias vezes o concurso local, promovido pela Prefeitura do Recife. Os prêmios, que costumam girar em torno de R$ 12 mil, nem fazem tanta diferença para um grupo que, este ano, vai gastar R$ 160 mil para montar seu arraial. Mas a satisfação de ter o trabalho reconhecido, essa sim, faz valer todo o esforço. "É inexplicável. O trabalho é tão grande que você nem acredita no que tá vendo. Depois de tudo que foi feito, quando a gente vê realmente, os componentes sorrindo, as pessoas que sonharam em dançar ali, é muito gratificante", diz Vanbaster.

O amor pela quadrilha parece ser a grande mola do grupo, a despeito de qualquer contrariedade. Como explica o marcador da Dona Matuta, Sérgio Trindade: "Às vezes a gente fica se perguntando como é que a gente consegue montar um espetáculo tão grandioso. A gente não tem apoio de ninguém, nosso apoio são os componentes e os eventos que a gente promove".

Em 2019, a quadrilha vai defender o tema Dona Matuta de Fato e de Direito. Em sua estréia, nessa noite de sábado no Sport Club, os integrantes foram do corre corre da organização da festa aos últimos detalhes das roupas reparados no escuro das coxias do palco a uma apresentação vigorosa e cheia de energia. É a promessa de mais um São João cheio de cores, tradição e muito amor.

 

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