Tradição

Fogueiras estão cada vez mais escassas no Recife

Quem ainda mantém a tradição diz que redução das fogueiras está ligada ao aumento de prédios, insegurança e desinteresse dos jovens

por Jorge Cosme

Bem antes do feriado de São João, no interior, as pessoas já começavam a separar bons pedaços de madeira que encontravam. A preferida era aquela já caída das árvores, que pega fogo rápido e se mantém em brasa. Ninguém gostava da madeira verde, porque criava muita fumaça. Quase toda família fazia sua fogueira. A tradição também se manteve nos centros urbanos, apesar da distância das matas e a necessidade muitas vezes de comprar a lenha. Ano após ano, entretanto, o discurso permanece: “há cada vez menos fogueiras no São João”.

“A tradição tem caído muito por causa da violência. A gente ficou até pensando se fazia a fogueira dentro ou fora de casa. A gente fica de olho”, diz o jornalista Marco Iune, de 40 anos. Ele e a família montaram uma fogueira no bairro de Campo Grande, na Zona Norte do Recife. Além da sensação de insegurança, outros fatores que parecem influenciar a redução do número de fogueiras são o crescimento das igrejas evangélicas, o aumento de prédios, o enfraquecimento das tradições com o passar das gerações e também o crescimento do discurso dos malefícios da fogueira para o meio ambiente e para a saúde.

Não é tarefa fácil andar pela Zona Norte do Recife, que possui muitas áreas residenciais, em busca de fogueiras. E, mesmo quando elas são finalmente encontradas, muitas vezes não há ninguém perto, estão isoladas, acesas por alguém que não está mais ali.

“Eu sou a única que acende fogueira na minha rua. Vinte anos atrás todo mundo fazia uma, agora só eu”, diz a dona de casa Maria Dolores, de 63 anos, moradora do Córrego do Euclides. “Antigamente davam mais valor ao São João”, complementa. Conceição Vitor da Anunciação, do Morro da Conceição adiciona um outro motivo para o fim da tradição: “O povo tem preguiça”.

A promessa

Na Rua da Harmonia, no bairro de Casa Amarela, você tem a garantia de que vai encontrar pelo menos uma fogueira. A de Maria de Fátima, de 70 anos.

Há 22 anos, ela fez uma promessa para São João. Tinha acabado de perder o marido e estava morando com a mãe. “Não é certo você morar na casa da mãe nessa idade”, ela reflete. Pediu que conseguisse um lar e em troca acenderia uma fogueira todos os anos para São João. Encontrou um novo companheiro e tem a sua casinha.

“Eu estava até pensando em perguntar ao padre se poderia mudar a promessa. Só eu faço fogueira. Acho que as pessoas passam aqui no carro pensando ‘quem é essa doida?’”, brinca Maria de Fátima.

Fogueira no quintal

Em um quintal apertado de uma residência em Casa Amarela, Eleutério José da Silva Neto, 38, deu um jeito de montar sua fogueira. Sem comprar madeira, conseguiu reunir tralhas de móveis velhos: porta, colunas, gavetas. O fogo estava forte.

Ele e a esposa, Ana Angélica, cresceram com seus pais montando fogueira. “Acho que hoje não é mais como antigamente. Os jovens não têm mais interesse”, opina Eleutério. “Pessoal não segue a tradição, antes o povo era mais religioso”, complementa Ana Angélica.

Bairro das fogueiras

O bairro do Arruda, também na Zona Norte, destoa do seu redor. Há fogueiras em diversas ruas. Em algumas, pessoas na calçada a observar a lenha virar fumaça e as crianças jogando traque contra a parede e o chão.

Só na Rua do Triunfo encontramos 20 fogueiras, algo totalmente incomum para os parâmetros dos bairros vizinhos. “Meu pai sempre fazia. Quando eu era jovem, as ruas ficaram repletas”, diz a aposentada Elisabete Santana Leite, de 65 anos, moradora da Rua do Triunfo.

“Se não tiver canjica, bandeiras e fogueira para mim não é São João”, diz a aposentada Fátima Vila Nova, 72. O filho segue os ensinamentos. “É a tradição da família”, afirma Luiz Gustavo Fonseca, 50. 

Comentários