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• 22/06/2017 - 18:13 • Atualizado em: 23/06/2017 - 07:03

Tradição ou inovação: afinal, o que é o forró?

Uma breve história do ritmo, criado e difundido por Luiz Gonzaga no século 20, que é até hoje a principal força da expressão da alma nordestina

por Ana Tereza Moraes
Luiz Gonzaga é ainda hoje o maior nome desse gênero musical Foto: Divulgação

No ano de 1941, um homem chamado Luiz Gonzaga, na época aos 29 anos, se tornou o responsável por criar e difundir o que hoje é um dos maiores símbolos da Região Nordeste: o forró. Até então, a cultura da região era muito confundida com a do Norte do país, mas, graças ao Rei do Baião, uma identidade única e marcante, que vigora até hoje, foi atribuída ao Nordeste brasileiro. De lá pra cá, essa música passou por mudanças e adaptações e manteve-se firme e forte, sendo propagada tanto em sua forma clássica como nas mais modernas.

O forró de Gonzaga era o baião. O Pernambucano, nascido em Exu, acrescentou ao ritmo o trio instrumental de forró, que se tornou referência. Ele uniu a sanfona, o triângulo e a zabumba como pano de fundo para as suas canções de cunho regional, cheias de referências ao sertão brasileiro, seu povo, suas belezas e maldições. A música do Rei do Baião atingiu seu auge em 1947, com o lançamento de 'Asa Branca', fruto de uma de suas parcerias com Humberto Teixeira e um marco não só para o ritmo, como também para toda a música brasileira. Seu legado atravessou gerações e fez com que o baião, o xaxado e o xote sobrevivessem ao tempo.

Luiz Gonzaga apadrinhou muitos dos atuais representantes do forró pé de serra. Nomes como Elba Ramalho, Alcymar Monteiro, Gennaro e Maciel Melo, além de Dominguinhos, Arlindo dos Oito Baixos e Camarão (esses em memória) são todos gratos pelo “Velho Lua” e, como recompensa, seguem defendendo suas tradições e perpetuando o ritmo da maneira mais próxima a sua forma original. “O forró, sobretudo o pé de serra, o autêntico, é de extrema importância para o Nordeste. A criação de Luiz Gonzaga foi o que projetou nossa região para o Brasil e para o mundo”, afirma o músico e jornalista Ivan Ferraz, que apresenta o programa de rádio “Forró, Verso e Viola”.

O NOVO FORRÓ 

Ao longo das décadas, o estilo musical assumiu novas roupagens e se reinventou, mantendo um pouco da tradição e se modernizando para atrair diferentes públicos. Wesley Safadão, Aviões do Forró e Gabriel Diniz são alguns dos mais populares representantes dessa nova modalidade do forró, que conquistou uma audiência fiel de norte a sul do país. Esses nomes do forró universitário, como é comumente chamada a nova versão, mesclam o embalo dançante e o som dos instrumentos típicos do ritmo nordestino com traços da música oriunda de outras regiões do país.

A nova geração de forrozeiros, que atualmente é quem está na moda, começou a ser moldada nos anos 90, com a banda Mastruz com Leite. A mudança veio no acréscimo do teclado, da guitarra, bateria e dos instrumentos de sopro ao forró tradicional. Essas inovações abriram portas para um forró “estilizado”, que fez sucesso principalmente entre os jovens e rendeu lucros milionários. 

O empresário Emmanuel Gurgel é um dos nomes por trás dessa reinvenção, e foi responsável por mudar a linguagem do ritmo, deixando de lado as letras sobre fome, seca e o nordestino do sertão e adotando uma linguagem mais romântica e alegre. Ele também contribuiu ao transformar o ritmo em um produto, investindo mais no marketing e na tecnologia e fazendo muito sucesso com a comercialização da música.

Ivan Ferraz aponta que esses artistas atuais têm papel fundamental na manutenção do ritmo, pois apesar de não tocarem o forró autentico, eles o difundem para o país, o mantêm na mídia e agradam as gerações mais jovens. “Acho que Luiz Gonzaga aprovaria”, opina.

Em entrevista anterior ao LeiaJá, José Mário Austregésilo, escritor do livro “Luiz Gonzaga, o homem, sua terra e sua luta”, frisou que, para sua época, o próprio Gonzaga não fazia uma música tradicional, e sim moderna, que virou moda, sobretudo graças a adição do trio de forró. “Ele construiu uma forma de cantar que não era a do pai, não era a dos cantadores que conhecia”, diz José, que relembra como foi o início da construção do legado do cantor: “Ele entrou no rádio, no meio de comunicação de massa. O Baião virou uma grande novidade, virou a dança da moda”.

A RESISTÊNCIA DA TRADIÇÃO

Alcymar Monteiro, grande nome da resistência do forró tradicional, não se mostra muito adepto as mudanças sofridas pelo ritmo. “O novo sempre virá, mas precisamos saber que novo é esse, que identidade ele traz. Nem sempre ele será bom”, diz o cantor. Ele enfatiza sua crença de que há apenas um forró: o autêntico. A este, se refere como “o legítimo, gonzaguiano, oriundo dos sertões e o gênero musical representativo da nossa região”.

O jornalista Ivan Ferraz também faz questão de defender o devido espaço da música tradicional nos festejos juninos. “O Brasil é um país continental, cheio de cultura, e cada Estado tem a sua própria música, suas tradições. O São João é a nossa tradição, então acho importante preservar e dar mais espaço ao forró autêntico, que faz parte disso”, disse Ivan, garantindo também reconhecer que toda música tem sua beleza, e que todo ritmo tem vez, “Mas deixa pra outras épocas do ano, né? Eles podem vir quando quiser”, concluiu o músico e radialista.

Nesse ponto, Alcymar concorda que há lugar para todos, mas alfineta: “[tem espaço] inclusive pra quem não tem talento nenhum e vive as custas de um gênero que não lhes pertence, para o qual eles não contribuíram com a construção”.

Defensor ferrenho da autenticidade dessa música típica nordestina, ele afirma que a tradição não pode se deixar atropelar por esse novo movimento musical. Em suas palavras, “os forrozeiros devem seguir falando a linguagem do povo, cantando nas praças públicas e tratando o forró como o nosso legado maior”. Ele finaliza fazendo um alerta, que, segundo ele, foi uma lição aprendida com o Rei do Baião: “O modismo sempre vai ter, sempre vai existir. Luiz Gonzaga me dizia para ter cuidado com a moda, porque ela é que nem sapato velho: quando não presta mais, a gente joga fora”.

No fim das contas, há forró para todos os gostos e gerações. O ponto principal é perpetuar o ritmo e mantê-lo eterno, transcendendo os limites do tempo. Afinal, ele é a alma e a expressão de cerca de 55 milhões de nordestinos. Como Alcymar Monteiro lembra, “Enquanto tiver uma sanfona, um sanfoneiro, uma zabumba, um zabumbeiro, um triângulo, um triangueiro e um 'arraiá' iluminado, o forró não se acabará".

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